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Esperava-se mais de Ronaldo no Mundial

Até 2010, Portugal havia participado em apenas quatro campeonatos do mundo: 1966, 1986, 2002 e 2006. Curiosamente, nas participações em terras europeias (1966 em Inglaterra e 2006 na Alemanha), Portugal havia feito excelentes campanhas ficando em terceiro e quarto lugar respectivamente, enquanto nas presenças fora da Europa (1986 no México e 2002 na Coreia/Japão) as campanhas foram péssimas, com a selecção das quinas a não passar da fase de grupos, perdendo mesmo com equipas que pareciam acessíveis como Marrocos (1986), Estados Unidos (2002) e Coreia do Sul (2002). Assim sendo, na terceira participação em terras distantes do velho continente, todos ficamos ansiosos para saber se à terceira era de vez e fazíamos uma boa campanha ou se, ao invés, voltávamos a fracassar como no México ou na Coreia/Japão. Curiosamente, acabamos por nem fazer uma coisa nem outra, terminando com uma campanha digna, mas modesta, pois limitamo-nos a cumprir com os serviços mínimos: oitavos de final. A única “consolação”? A Espanha, que nos eliminou, sagrou-se campeã do mundo de futebol. 

A Fase de Grupos 

Integrados no Grupo G com Costa do Marfim, Coreia do Norte e Brasil, percebeu-se, desde cedo, que Portugal iria disputar o apuramento para os oitavos de final com a equipa marfinense. Nesse aspecto, o facto da equipa lusitana defrontar a equipa canarinha na última jornada poderia revelar-se um ponto a favor da nossa selecção como, aliás, se confirmou. 

O primeiro jogo de Portugal, diante da Costa do Marfim, foi, sem sombra de dúvida, o pior da campanha lusitana na África do Sul. Portugal até começou melhor, ficando na retina um grande remate de Cristiano Ronaldo ao poste da baliza de Barry, mas depois, com o passar do tempo, Portugal foi recuando, foi ficando parco em ideias e foi dando, perigosamente, a iniciativa de jogo aos marfinenses. Ronaldo não existia, Danny mostrava ser um equívoco, Paulo Ferreira tinha dificuldades para parar os velozes avançados africanos e Liedson, esse, sozinho na frente, era incapaz de fazer o que fosse perante os gigantes defesas da Costa do Marfim. Neste jogo, salvou-se Coentrão (grande exibição), Eduardo (sempre atento) e o facto de Drogba, completamente isolado, já nos descontos, ter tentado um passe, quando tinha tudo para marcar um golo que, quase de certeza, iria ser fatal para a passagem portuguesa aos oitavos de final. No final, o nulo foi bem melhor que a exibição. 

A equipa lusitana encarou o segundo jogo com os norte-coreanos com algumas cautelas, pois os asiáticos haviam, na primeira partida, perdido apenas por um golo (1-2) com o Brasil. Na primeira parte os asiáticos ainda deram um ar da sua graça com bons processos ofensivos e alguns remates perigosos, mas Portugal chegou ao intervalo a vencer por uma bola a zero e percebia-se que bastaria a equipa das quinas acelarar na segunda parte para fazer mais golos. Na verdade, essa segunda metade, foi o melhor período de Portugal no campeonato do mundo. Com um futebol fluído, com bastantes passes ao primeiro toque e muita velocidade, Portugal foi trucidando o sector recuado norte-coreano. Coentrão e Ronaldo combinavam muito bem no flanco esquerdo, Tiago mostrava ser um autêntico maestro do meio campo e os golos iam se sucedendo. Simão, Tiago (2), Hugo Almeida, Cristiano Ronaldo e Liedson marcaram, assim, seis tentos nos segundos quarenta e cinco minutos e a partida terminou com uma vitória lusa por 7-0, provando que Portugal, quando quer, pode jogar um futebol ofensivo, imaginativo e do agrado do espectador. 

Como se esperava, o Brasil havia vencido a Costa do Marfim (3-1) e, assim, esse resultado aliado ao facto de termos despachado a Coreia do Norte por 7-0, deixava-nos praticamente apurados para a fase seguinte. Ainda assim, Queirós, talvez temendo que os asiáticos pudessem levar um correctivo da equipa africana ao nível do que haviam levado de Portugal, preferiu apresentar uma equipa cautelosa, com Ricardo Costa e Duda como laterais, Ronaldo como ponta de lança e Fábio Coentrão no meio campo. Acabou por ser um jogo bastante enfadonho, com poucas oportunidades de golo e com ambas as equipas contentes com o zero a zero, pois, com esse resultado, o Brasil assegurava o primeiro lugar e Portugal assegurava o apuramento para os oitavos de final. Ainda assim, destaque para a fraca exibição de Ricardo Costa e de Danny que pareciam estar a mais em campo, sendo que o defesa, muitas vezes, até parecia estorvar os companheiros do sector enquanto o jogador do Zenit, perto do fim, na única vez em que fez algo de útil, desperdiçou uma grande oportunidade de dar a vitória a Portugal e colocar-nos no primeiro lugar do agrupamento. Esse falhanço obrigava-nos, assim, a jogar com a Espanha nos oitavos de final. 

Oitavos de Final 

No jogo contra a Espanha, Queirós voltou a surpreender, insitindo na utilização de Ricardo Costa a lateral direito (menos mau que com o Brasil, mas muito fraquinho) e apostando em Hugo Almeida na frente de ataque (uma nulidade), quando se esperava o mais móvel: Liedson. 

Os primeiros quinze minutos de Portugal foram um pesadelo. A Espanha trocava a bola no meio campo lusitano de forma rápida e incisiva, conseguindo criar lances de perigo sucessivos para a baliza de um sempre atento e muitas vezes heroico Eduardo. Ainda assim, com o passar do tempo, Portugal foi equilibrando a partida, conseguindo, até, chegar algumas vezes à baliza de Casillas. 

Neste período, a “Roja” com Villa e Torres a descaírem muito nas alas, ia perdendo alguma objectividade e o jogo foi se arrastando até que Del Bosque, aos 58 minutos, decide tirar Fernando Torres e lançar, no seu lugar, o ponta de lança fixo: Llorente. Esta alteração desorientou totalmente Portugal, que além de não ter sabido reagir à mudança táctiva, viu Carlos Quirós tirar Hugo Almeida, que apesar de ter feito um mau jogo ainda prendia os defesas castelhanos e lançar Danny, deixando Portugal sem referência ofensiva. 

Tantos equívocos não podiam resultar em coisa boa e, pouco depois, David Villa fez o golo da Espanha. Ainda faltava cerca de meia hora, mas para a equipa das quinas o jogo podia ter terminado naquele instante. Queirós, no banco, era incapaz de fazer o que quer que fosse para alterar o rumo dos acontecimentos, apesar de ainda ter tentado emendar a mão, lançando Liedson e voltando a colocar a equipa lusa com uma referência atacante. No entanto, era tarde demais e a alteração foi incapaz de fazer efeito perante uma equipa que se arrastava em campo sem ideias colectivas e sem qualquer rasgo ou momento de inspiração individual. 

Assim sendo, foi sem surpresa que o jogo se arrastou até final, terminando com uma vitória da Espanha por uma bola a zero, num jogo em que ficou a ideia que se Portugal tivesse tido mais ambição podia ter tido outro resultado. 

Conclusão 

Para os apreciadores de estatísticas, temos que admitir que foi a melhor participação de Portugal fora do velho continente (passamos, enfim, a fase de grupos), que foi a vez que sofremos menos golos (apenas um) e que marcámos tantos golos como no Alemanha 2006 (sete, curiosamente todos contra a Coreia do Norte). 

Em termos globais, cumprimos com aquele que podia ser considerado o objectivo mínimo: os oitavos de final. Num grupo com o Brasil e Costa do Marfim, seria extremamente difícil ficar em primeiro lugar, ainda que, agora, analisando a frio, tenhamos a noção que com mais ambição e com um esquema mais arrojado teria sido possível vencer o agrupamento. Ainda assim, termos sido eliminados pela Espanha, nos oitavos de final, sabendo que “nuestros hermanos” acabaram por vencer o Mundial, nunca pode ser encarado como um fracasso absoluto. 

O pior, na verdade, foram as exibições e a atitude competitiva da selecção portuguesa. Tirando os segundos 45 minutos com a Coreia do Norte, Portugal pareceu sempre uma equipa abaixo das suas possibilidades. Mostramos muitos receios, pouca ambição, tivemos sempre mais preocupação em defender do que em assumir o jogo e isso, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por ser fatal. Carlos Queirós terá, se continuar (como se espera) como seleccionador nacional, que rever algumas das suas ideias e perceber, de uma vez por todas, que jogadores como Ricardo Costa nunca podem ser titulares da nossa equipa, que Duda não acrescenta nada a Portugal, que Ronaldo não pode jogar sozinho na frente e que Hugo Almeida apenas pode ser titular em condições muito especiais. 

No entanto, nem tudo é mau no horizonte futuro. Bosingwa e Nani estão aí a regressar, Rúben Micael será uma opção e Quaresma, agora no Besiktas, também poderá voltar à selecção. Estes jogadores poderão permitir a Carlos Queirós uma mudança no seu paradigma táctico, utilizando um esquema mais ofensivo, mais criativo e, acima de tudo, mais de acordo com a génese daquele que é, na realidade, o futebol português. Veremos se tem a capacidade para o fazer, pois, na verdade, as qualificações para o Euro 2012 estão aí mesmo à porta…

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Portugal acabou por fazer um campeonato do mundo mediano, limitando-se a cumprir com aquilo que poderíamos considerar, à partida, os serviços mínimos: alcançar os oitavos de final. Individualmente, muitos jogadores estiveram abaixo das suas capacidades, alguns acabaram por serem iguais a si próprios e outros, uma minoria, superaram todas as expectativas, acabando por fazer um excelente Mundial. Neste artigo, irei definir aqueles que, para mim, foram a surpresa, a revelação, a confirmação, a desilusão e o ausente da selecção das quinas no campeonato do mundo da África do Sul.

A surpresa – Eduardo (Guarda-Redes)

Depois da excelente prestação no campeonato do mundo, termos descoberto que o antigo guarda-redes do Sp. Braga assinou pelo modesto Génova, quando se chegou a falar da hipótese Bayern Munique, acabou por ser uma desilusão. Eduardo foi, no Mundial 2010, provavelmente o jogador mais importante da selecção nacional. Voz de comando de todo o sector defensivo, mostrou uma extraordinária elasticidade e enorme segurança entre os postes, tanto pelo chão como pelo ar. Apesar das poucas internacionalizações, Eduardo esteve sempre ao seu melhor nível, nunca se atemorizando na presença de jogadores tão credenciados como Drogba, Luís Fabiano ou David Villa, terminando o campeonato do mundo com apenas um golo sofrido. Na verdade, o ex-jogador do Sporting de Braga esteve ao nível dos melhores anos de Vítor Baía e esse é, provavelmente, o melhor elogio que lhe podemos fazer.

A revelação – Fábio Coentrão (Lateral-Esquerdo)

Chamar ao jogador do Benfica de lateral esquerdo acaba por ser uma minimização daquilo que Fábio Coentrão foi no campeonato do mundo da África do Sul. Bem trabalhado por Jorge Jesus ao longo de toda a época 2009/10, a jovem promessa apareceu no Mundial numa forma excelente e, surpreendentemente, sempre sem mostrar sob pressão, encarando os adversários de frente e, muitas vezes, servindo de exemplo de raça e querer para todos os seus companheiros. Ao longo dos desafios, Coentrão foi sempre competente a defender e, mais importante que isso, foi, quase sempre, o maior desiquilibrador que a equipa teve no flanco esquerdo. Foi uma enorme surpresa ver um jogador tão jovem fazer todo um corredor com aquela qualidade, confiança e competência, raramente tendo um deslize ou uma má opção. Depois de muitos anos a penar, os portugueses podem ficar descansados, descobriu-se um (grande) lateral esquerdo para a selecção.

A confirmação – Bruno Alves (Defesa-Central)

A qualidade do central do FC Porto esteve sempre acima de qualquer dúvida, mas temia-se pela sua agressividade excessiva que, por vezes, prejudica-lhe a ele e à sua equipa. No entanto, ao longo do campeonato do mundo, Bruno Alves foi sempre um exemplo de correcção, rigor, inteligência e segurança no sector defensivo português. Jogador habituado ao choque, foi quase sempre intransponível, provando ser o par ideal para o experiente Ricardo Carvalho, nunca perdendo a calma, nunca mostrando ser afectado pela pressão e dando sempre a ideia que, se Portugal qubrasse, nunca seria por culpa dele. Imperial tanto nas alturas como com a bola junto à relva e com uma técnica bastante boa para um defesa central de choque, Bruno Alves, aos 28 anos, merece, depois deste Mundial, um contracto com um grande clube da Europa.

A desilusão – Cristiano Ronaldo (Avançado)

Não podemos dizer que a prestação do jogador do Real Madrid foi horrivel, mas, para um jogador do seu calibre, esteve, por certo, bem abaixo daquilo que o madeirense sabe e pode fazer. Ao longo dos jogos de Portugal, Ronaldo foi utilizado tanto na ala como a ponta de lança e se nos flancos ainda deu um ar da sua graça, provou que, sozinho na frente de ataque, é peixe fora de água e pouco pode fazer para ajudar a selecção das quinas. Um golo, uma assistência, dois remates aos postes e algumas boas iniciativas acabam por ser um reflexo pálido daquilo que se esperava de Cristiano Ronaldo e acabam por provar que ainda está para chegar alguém à selecção que saiba tirar partido da plenitude do seu talento e enorme qualidade.

O ausente – Deco (Médio-Ofensivo)

Na despedida da selecção das quinas, esperava-se que o “Mágico” aparecesse ao seu melhor nível e fosse o farol das iniciativas atacantes da equipa portuguesa. Apesar de estar no ocaso da carreira, o luso-brasileiro continuava a ser um jogador com boa capacidade técnica e excelente timing de passe, o que aliado a uma frente de ataque com jogadores rápidos como Ronaldo ou Simão, podia fazer estragos nas defesas contrárias. Infelizmente, Deco apenas fez o jogo inaugural diante da Costa do Marfim, onde esteve bem abaixo do que costuma fazer, mostrando-se lento e sem ideias, um pouco como, aliás, esteve quase toda a equipa portuguesa. Após esse jogo, Deco teceu duras críticas a Queirós, queixando-se da posição em que foi colocado a jogar. Pouco depois, lesionou-se e desapareceu, sem deixar rasto, até ao final da participação portuguesa no campeonato do mundo.

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RDA e Chile empataram a uma bola no Mundial 74

A qualificação para o Mundial 1974, que se disputaria na República Federal da Alemanha, teve um playoff de apuramento intercontinental que colocava, frente a frente, as selecções do Chile e da União Soviética. No primeiro jogo, a 26 de Setembro de 1973, em Moscovo, o resultado saldou-se num empate e, assim, a 21 de Novembro, iria disputar-se em Santiago do Chile, o jogo decisivo para o último passaporte para o campeonato do mundo. Contudo, ao mesmo tempo, o Chile havia vivido um golpe de estado patrocinado pelos EUA, que fez com que Pinochet derrubasse o socialista e legitimamente eleito: Salvador Allende. Em plena guerra fria, ninguém acreditaria que os soviéticos não aproveitassem o momento para um protesto político e, de facto, foi o que fizeram…

O Chile chegava a este playoff após ter superado um grupo com as selecções do Peru e da Venezuela. Como havia sido o vencedor de grupo com pior performance (atrás de Argentina e Uruguai), seria obrigado a superar a selecção com registo identico, mas do continente europeu: URSS (superou a França e a Rep. Irlanda para chegar a este jogo decisivo).

Poucos dias antes do primeiro jogo (a disputar em Moscovo), no dia 11 de Setembro de 1973, o Chile viveu um golpe de Estado liderado por Augusto Pinochet e com o total apoio dos Estados Unidos. Essa acção militar derrubou o socialista e democraticamente eleito: Salvador Allende, sendo que grande parte dos partidários e apoiantes de Allende foram detidos, torturados e, até, executados no Estádio Nacional de Santiago do Chile.

Após o primeiro jogo disputado na URSS e que terminou com um nulo, os soviéticos afirmaram que não pretendiam viajar para Santiago do Chile e, muito menos, jogar num “Estádio da Morte” que havia sido palco de atrocidades contra partidários socialistas. Em plena guerra fria, era uma decisão lógica de protesto contra a intervenção norte-americana num país de governo socialista e pró-soviético.

Assim sendo, na segunda mão, disputada a 21 de Novembro de 1973, os soviéticos cumpriram a promessa e não compareceram ao jogo. Devido a isso, o Chile iria apurar-se, automáticamente, devido a falta de comparência, no entanto, os sul-americanos não deixaram de fazer uma encenação que demonstrasse a sua superioridade sobre os soviéticos.

No dia do desafio, os chilenos entraram mesmo em campo e, perante milhares de espectadores, alguns jogadores sul-americanos deram um pontapé de saída e avançaram por um meio campo deserto para fazerem um golo simbólico que foi seguido de um pseudo apito final.

O Chile avançava para o Mundial da RFA, onde foi eliminado logo na primeira fase, pois na fase de grupos, apenas empatou com a Alemanha Oriental (1-1) e Austrália (0-0), perdendo com a Alemanha Ocidental (0-1). Nesse campeonato do mundo, todos os seus jogos ficaram marcados por protestos contra o regime, exibidos nas bancadas por exilados políticos.

Os soviéticos, esses, já tinham feito o seu protesto, não aparecendo ao jogo da segunda mão e permitindo que, assim, se disputasse um jogo fantasma naquele que ficou conhecido com o Estádio da Morte…

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Monumento à “Guerra do Futebol” nas Honduras

Estávamos em Junho de 1969 e El Salvador e as Honduras disputavam uma eliminatória de tudo ou nada na zona de apuramento da CONCACAF para o México 1970. As Honduras venceram o primeiro jogo (1-0), enquanto os salvadorenhos venceram o segundo (3-0) e o desempate (1-0) na cidade do México. Durante todos os encontros, houve confrontos graves, principalmente na partida em El Salvador, confrontos que derivavam de problemas já antigos que geraram perseguições, expulsões e, imagine-se, uma guerra, que ficaria conhecida para sempre como: “A Guerra do Futebol”.

Com o México automaticamente apurado como país organizador do Mundial 1970, abria-se uma vaga para uma selecção de segunda linha da CONCACAF.  Honduras, El Salvador, Haiti e EUA superaram a primeira fase e apuraram-se para as meias finais que designou os seguintes jogos: EUA vs Haiti e El Salvador vs Guatemala.

Naquela altura, El Salvador e as Honduras tinham bastantes e graves problemas sociais e etnicos, pois os salvadorenhos, apesar de terem o dobro da população das Honduras, tinham um país cinco vezes mais pequeno que os hondurenhos e, assim, criaram uma grande vaga de emigração para as Honduras em busca de terrenos agícolas onde pudessem trabalhar.

Nessa época, os terrenos agrícolas hondurenhos eram, na sua quase totalidade, controlados por grandes latifundiários e por grandes empresas internacionais. Cansados dessa situação, os hondurenhos fizeram uma reforma agríciola que protegia o agricultor local e começou a desapropriar os salvadorenhos que trabalhavam nas Honduras. Essa situação tornou-se mais fácil, pois a maior parte dos emigrantes de El Salvador estavam nas Honduras de forma ilegal e a trabalharem terrenos que não lhes pertenciam.

Esta situação era muito delicada e, na verdade, apenas precisava de um rastilho para despoletar algo de muito grave. Um jogo de futebol, ainda para mais de apuramento para um Mundial, tornava-se a desculpa perfeita.

A primeira partida, disputada nas Honduras, foi vencida pela equipa local (1-0) e, a segunda, jogada em El Salvador, foi vencida pelos salvadorenhos (3-0). Em ambos os jogos, houve confrontos graves entre pessoas das duas nacionalidades, além de perseguições de hondurenhos em El Salvador e, principalmente, de salvadorenhos nas Honduras.

O desempate (na altura o que contavam eram as vitórias e não as margens de golo das mesmas) disputou-se no México e foi ganho por El Salvador (1-0), que assim iria avançar para jogar a final com o Haiti, mas, naquela altura, pouco interessou, pois todos já esperavam algo de muito grave.

A prova de que esse medo tinha razão de ser foi uma guerra, que se iniciou no mês seguinte aos jogos de apuramento, ou seja em Julho (dia 14 para sermos mais exactos). Os salvadorenhos invadiram e controlaram territorio hondurenho, até que, no dia 20 de Julho, foi decretado o cessar fogo, ainda que os militares de El Salvador só tenham começado a abandonar as Honduras nos primeiros dias de Agosto. Morreram 3000 (900 salvadorenhos e 2100 hondurenhos) no decurso da “Guerra do Futebol”.

Em Setembro, a selecção de El Salvador disputou mesmo a eliminatória com o Haiti e venceu-a (2-1, 0-3 e 1-0), apurando-se para um Mundial de má memória, pelos jogos de apuramento terem ajudado a gerar a “Guerra do Futebol” e, também, porque, no Mundial própriamente dito, os salvadorenhos foram eliminados logo na primeira fase devido às derrotas com Bélgica (0-3), México (0-4) e União Soviética (0-2).

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Tacticamente rigoroso e competente

A chamada de Ricardo Costa foi uma surpresa na convocatória para o mundial da África do Sul e, à partida, o seu espaço na equipa seria reduzido. Apesar de alguma dificuldade em ser imprescindível nos clubes por onde passa, conta com uma carreira recheada de títulos e experiência em equipas vencedoras.

Começou por jogar nas camadas jovens do Boavista, mas transferiu-se para o FC Porto ainda nos escalões de formação. A sua incursão no futebol sénior começou por uma passagem pela equipa B do FC Porto, onde defendeu a camisola azul e branca, na Segunda Divisão B, nas temporadas 1999/00 e 2000/01. Integrou o plantel principal na temporada 2001/02, actuando simultaneamente na equipa B. Mas, foi em 2002/03, pela mão de José Mourinho, que começou a conhecer o sabor da vitória, fazendo parte da magnífica equipa que conquistou dois campeonatos nacionais, uma Taça UEFA, uma Liga dos Campeões e uma Taça de Portugal. Continuou no clube portista e voltou a conquistar títulos (uma Taça Intercontinental, um campeonato nacional e uma Taça de Portugal), mas apesar de fazer parte do plantel até 2007, nunca se impôs como uma peça fundamental na equipa, acabando por rumar ao estrangeiro para jogar no Wolfsburg (2007/08). Na Alemanha, jogou duas temporadas e meia voltou a conhecer a vitória com a conquista do campeonato na época 2008/09, transferindo-se para o Lille a meio da temporada transacta e ajudando o clube francês a alcançar o 4º lugar na liga francesa. Na próxima época irá jogar no Valência de Espanha.

Fez o percurso das camadas jovens somando 23 internaticonalizações sub-21 e marcando presença na equipa olímpica que disputou os Jogos Olímpicos de Atenas (2004). Na selecção principal, estreou-se em 2005 e fez parte das escolhas de Scolari para o Mundial 2006, na Alemanha. Quatro anos depois, volta a marcar presença numa campeonato do mundo e já deu o seu contributo à equipa, no empate frente ao Brasil.

Ricardo Costa não é um central alto (1,83m), nem é especialmente rápido ou tecnicamente dotado. O seu estilo é o de um central duro e de marcação. A sua polivalência, fruto de uma boa capacidade táctica, é uma das suas maiores mais valias no apoio à equipa, podendo, sempre que necessário, desempenhar qualquer posição na defesa – seja como central ou como um lateral mais defensivo que fecha o corredor, como o vimos actuar algumas vezes. Frente ao Brasil jogou fora da sua posição habitual e apesar de sentir dificuldades em alguns lances, contribuiu para a consistência defensiva que a equipa demostrou.

Quando olhamos para os vinte e três escolhidos por Queirós, Ricardo Costa poderá aparentar ser apenas uma opção de recurso, mas a sua experiência e polivalência poderão ser importantes para a consistência da equipa.

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Rolando Portugal

Rolando, uma alternativa para o centro da defesa

Rolando Jorge Pires da Fonseca, conhecido simplesmente por Rolando, é um central de 24 anos que actua no FC Porto. Apesar de ser presença regular nas convocatórias de Carlos Queirós, o seu espaço na equipa é reduzido e a sua utilização passará por circunstâncias muito especiais.

Rolando começou nas camadas jovens do S.C. Campomaiorense, mas chegou ao Belenenses antes de completar a sua formação. Na equipa do Restelo, estreou-se na primeira divisão na temporada 2004/05, onde jogou os 30 jogos da liga, ajudando a equipa a chegar ao 8º lugar. Durante quatro épocas jogou em Belém, como titular até se transferir para o FC Porto (2008/09), com o objectivo de ser o substituto de Pepe. Agarrou de imediato a titularidade, onde, à dois anos, joga com regularidade.

Rolando é um central alto (1,89m) e rápido, jogando bem na antecipação e fazendo exibições regulares. No entanto, peca por ser um defesa demasiado “mole” e com um fraco sentido posicional, acabando por ser demasiado passivo em alguns lances. A sua utilidade passa por jogar ao lado de um defesa duro e forte na marcação, como acontece no FC Porto, onde faz dupla com Bruno Alves.

Na selecção, conta com menos de dez jogos, mas muitas presenças em convocatórias, o que dá a entender que para Queirós, Rolando pode ser uma aposta de futuro. No entanto, a sua utilidade neste mundial acabará por estar reduzida à necessidade de povoar a grande área na defesa de um resultado, ou na eventualidade de dois dos seus colegas que jogam centro da defesa estiverem indisponíveis.

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Era uma selecção sublime, aquele Brasil que venceu o Mundial 1970 disputado no México. Jogadores como Pelé, Jairzinho, Rivelino ou Tostão deram um espectáculo de magia, alegria e criatividade, explanado num futebol ofensivo que permitiu aos canarinhos vencerem todos os seis jogos que disputaram e marcarem 19 golos. Um exemplo do poderio brasileiro foi a forma como venceram a final: 4-1 à Itália, num jogo dominado totalmente pela equipa de Pelé. Este foi também o primeiro campeonato do mundo com substituições (duas na altura) e com cartões…

Primeira Fase

Tal como no Chile 1962 e no Inglaterra 1966, a primeira fase foi composta por quatro grupos  de quatro equipas, passando os dois primeiros de cada grupo para os quartos de final. Este foi, no entanto, o primeiro campeonato do mundo com substituições e, também, com cartões, uma ideia do Árbitro Ken Aston após parar nos semáforos de uma rua de Londres e pensar que os sinais amarelo e vermelho podiam ser uma forma de parar a violência. Outra estreia neste campeonato do mundo foi o facto da Adidas ter-se encarregado, pela primeira vez, da bola do Mundial. A estreia aconteceu com a Telstar, uma bola branca com hexágonos pretos.

No Grupo A, México e URSS, não deram hipóteses a Bélgica e El Salvador, pois após empatarem entre si (0-0), aztecas (1-0 à Bélgica e 4-0 a El Salvador) e soviéticos (4-1 à Bélgica e 2-0 a El Salvador) venceram os seus adversários e apuraram-se facilmente para os oitavos de final. Destaque, também, para o facto do soviético Byshovets ter sido o primeiro atleta a ver um cartão amarelo num campeonato do mundo.

Mais equilibrado foi o Grupo B, composto por Itália, Uruguai, Suécia e Israel. Neste agrupamento, apuraram-se a Itália (1ª), que venceu a Suécia (1-0), empatando com Uruguai (0-0) e Israel (0-0) e o Uruguai, que além do empate com os italianos, venceu Israel (2-0) e perdeu com a Suécia (0-1). Os suecos, mesmo vencendo os uruguaios, acabaram eliminados, pois apesar de terem terminado com os mesmos pontos dos celestes, tiveram pior “goal-average”.

Por outro lado, o Grupo C foi um autêntico passeio para o Brasil, que venceu Checoslováquia (4-1), Inglaterra (1-0) e Roménia (3-2), qualificando-se facilmente para a segunda fase e em primeiro lugar. Neste agrupamento, os ingleses também asseguraram o passaporte para os quartos de final, pois apesar de terem perdido com os canarinhos, venceram Roménia (1-0) e Checoslováquia (1-0) e asseguraram o segundo lugar.

Por fim, o Grupo D foi dominado pela Alemanha Ocidental, que venceu Marrocos (2-1), Bulgária (5-2) e Peru (3-1) e conquistou facilmente o primeiro lugar. O outro apurado, foi o Peru, que apesar de ter perdido com os germânicos, não deu hipóteses a Bulgária (3-2) e Marrocos (3-0), terminando na segunda posição. Neste agrupamento, há ainda a destacar a quarta presença em campeonatos do mundo do alemão Seelar (esteve presente em 1958, 62, 66 e 70), ainda assim, não se tratava de um record, pois o mexicano Carbajal havia estado presente em cinco (1950, 54, 58, 62 e 66).

Quartos de Final

O Uruguai-União Soviética foi um duelo muito disputado e só ficou decidido no prolongamento, ao minuto 117, após um golo do uruguaio Espárrago. Os soviéticos ainda apresentaram um protesto oficial, pois entenderam que a bola já tinha saído de campo no momento do centro do qual resultou o tento, contudo, a FIFA rejeitou o apelo.

Menos equilibrado foi o Itália-México, pois os “azzurri”, que até começaram a perder (golo de González aos 13 minutos), deram a volta ao resultado e acabaram por vencer, facilmente, por quatro bolas a uma.

Por outro lado, o Brasil-Peru foi um jogo espectacular que colocou, frente a frente, o mágico Brasil de Pelé e o surpreendente Peru de Cubillas. Nesse jogo, o antigo jogador do FC Porto até fez um golo, ao contrário de Pelé, que ficou em branco, todavia, foi o Brasil que venceu o jogo (4-2), graças aos golos de Rivelino, Tostão (2) e Jairzinho.

Por fim, Alemanha Ocidental e Inglaterra disputaram a última vaga nas semi-finais. Num ambiente adverso (os mexicanos revelaram grande hostilidade aos ingleses durante todo o jogo), A equipa dos três leões chegou mesmo a estar a vencer por 2-0 e parecia lançada para o apuramento, todavia, a fria equipa germânica conseguiu chegar à igualdade antes dos 90 minutos. No prolongamento, a RFA foi mais feliz e garantiu a vitória graças a um golo do bombardeiro Gerd Müller (106′).

Meias-Finais

Na primeira meia final, o Brasil até entrou a perder com o Uruguai (Cubilla abriu o activo aos 19 minutos), mas depois a equipa canarinha puxou dos galões e soube dar a volta ao resultado com golos de Clodoaldo (45′), Jairzinho (76′) e Rivelino (90′), vencendo a partida por 3-1.

Por outro lado, a outra semi-final (Itália-Alemanha Ocidental) só se decidiu no prolongamento. A Itália marcou logo aos sete minutos e o resultado (1-0 para os italianos), manteve-se inalterado até aos 90 minutos, quando Schnellinger empatou a partida e forçou o tempo extra. No prolongamento, assistimos a um jogo fantástico, com a Itália a fazer o 2-1 e o 3-2, mas com os germânicos a empatarem sempre a partida. No entanto, aos 111 minutos, Rivera fez o 4-3 e, dessa vez, os alemães já não conseguiram responder, ficando fora da final. Neste desafio, temos ainda de destacar Beckebauer que deslocou a clavícula e jogou os últimos 30 minutos com o braço ao peito.

Terceiro e Quarto Lugar

É sempre um jogo ingrato, uma espécie de final menor, que, muitas vezes, trás pouca motivação aos intervenientes. Ainda assim, a Alemanha Ocidental não quis perder a oportunidade de atingir o último lugar no pódio e, conseguiu esse objectivo, vencendo o Uruguai, graças um golo solitário de Overath (27′).

Final* Brasil 4-1 Itália

O resultado pode dar a ideia de que a Itália, que não perdeu qualquer jogo até esta final e que tinha jogadores como Riva, Facchetti e Domenghini, teve uma má tarde, mas isso não correspondeu à verdade.

O Brasil tinha, na verdade, uma equipa fantástica e, apesar da inegável qualidade da selecção “azzurra”, conseguiu vencer o jogo com uma facilidade e clareza impressionante.

Marcou primeiro, por Pelé (18′), ainda permitiu a igualdade, na sequência de um golo de Boninsegna (37′), mas depois foi uma auto-estrada de magia, criatividade e golos, que foram três: Gérson (66′), Jairzinho (71′) e Carlos Alberto (89′), mas podiam ter sido mais, perante uma Itália que foi incapaz de responder à provavelmente melhor selecção da história.

Uma vitória justíssima e que garantia o tricampeonato mundial aos canarinhos, que, depois deste título, entrariam num jejum que durou 24 anos…

Números do Mundial 1970

Campeão: Brasil

Vice-Campeão: Itália

Terceiro Classificado: Alemanha Ocidental

Quarto Classificado: Uruguai

Eliminados nos Quartos de Final: URSS, Peru, México e Inglaterra

Eliminados na Fase de Grupos: Bélgica, El Salvador, Suécia, Israel, Roménia, Checoslováquia, Bulgária e Marrocos

Melhor Marcador: Gerd Müller (Alemanha Ocidental) – 10 golos

Equipa do Mundial 1970: Mazurkiewicz (Uruguai); Carlos Alberto (Brasil), Schwarzenbeck (Alemanha Ocidental), Beckenbauer (Alemanha Ocidental) e Facchetti (Itália); Clodoaldo (Brasil), Overath (Alemanha Ocidental) e Rivelino (Brasil); Jairzinho (Brasil), Pelé (Brasil) e Gerd Müller (Alemanha Ocidental).

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