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Disputado na pátria do futebol, que sempre exaltou a ética, a moral e os bons costumes, o Mundial 66 foi uma competição com protestos, más arbitragens e, até, algumas matreirices. Um bom exemplo foi o de obrigar Portugal a fazer uma viagem longa até Londres nas meias finais, quando a equipa das quinas tinha o direito de disputar essa partida com a Inglaterra em Liverpool. Ainda assim, foi um campeonato do mundo pleno de qualidade, que serviu para confirmar o enorme talento de Eusébio ao Mundo, provar que os norte-coreanos também sabiam jogar futebol (a Itália que o diga) e, acima de tudo, dar o primeiro e único título mundial à Inglaterra.

Primeira Fase

A primeira fase do campeonato do mundo foi exactamente igual ao Chile 62: dezasseis selecções divididas em quatro grupos de quatro, em que se apuravam os dois primeiros para os quartos de final.

No Grupo A, a Inglaterra demonstrou que era uma séria candidata ao ceptro mundial, ao vencer um agrupamento difícil, graças às vitórias diante de México (2-0) e França (2-0) e ao empate diante do Uruguai (0-0). Neste grupo, os sul-americanos também se apuraram, pois além de terem empatado com os ingleses e com o México (0-0), a vitória diante da França (2-1) foi suficiente para o passaporte para os quartos de final.

Outro agrupamento sem surpresas foi o Grupo B, onde Alemanha Ocidental e Argentina se superiorizaram a Espanha e Suíça. Os germânicos venceram a Suíça (5-0) e a Espanha (2-1), empatando com os sul-americanos (0-0), enquanto os argentinos, além do empate com os alemães, venceram, igualmente, helvéticos (2-0) e espanhóis (2-1).

Por outro lado, no Grupo C, surgiu a primeira grande surpresa. Apesar do Brasil ter chegado inferiorizado a Inglaterra, poucos acreditariam que os canarinhos fossem eliminados num grupo com Hungria, Bulgária e Portugal. No entanto, os brasileiros, apesar de terem vencido o primeiro jogo (2-0 aos búlgaros), perderam com a Hungria (1-3) e, também, com Portugal (1-3), num desafio em que Morais, com uma marcação implacável a Pelé, anulou o astro brasileiro. Neste agrupamento, o grande vencedor foi Portugal que começava a surpreender o Mundo, pois além da vitória diante do Brasil, os portugueses também venceram os magiares (3-1) e  a Bulgária (3-0). O outro apurado foi a Hungria, a quem bastou vencer os canarinhos (3-1) e búlgaros (3-1) para se apurar para os quartos de final.

Por fim, o Grupo D também assistiu a um escândalo e este foi bem maior que o que se viveu no grupo luso. Num agrupamento totalmente dominado pela União Soviética, que venceu Coreia do Norte (3-0), Itália (1-0) e Chile (2-1), italianos e coreanos chegaram ao último jogo para decidirem quem seria o segundo classificado. Os europeus haviam vencido o Chile (2-0) e os asiáticos apenas tinham empatado (1-1) e, assim, bastava um empate à Itália. No entanto, os azzurri não encararam o jogo com a devida atenção e acabaram por perder (0-1) com os norte-coreanos, graças a um golo de Pak Doo-Ik (41′). Esta eliminação italiana levou a Federação local a fechar as fronteiras da Série A a jogadores estrangeiros durante mais de uma dezena de anos.

Quartos de Final

O primeiro jogo dos quartos de final foi o Inglaterra-Argentina e, além da vitória inglesa (1-0), este jogo teve uma história deveras curiosa. Aos 35 minutos, o argentino Rattin foi expulso por palavras, mas o curioso é que nem ele falava alemão nem o juiz germânico (Kreitlen) falava espanhol. Como tal, o atleta sul-americano recusou-se a sair de campo, exigindo um tradutor. O jogo esteve parado durante sete minutos e só com a intervenção da polícia é que Rattin abandonou o campo. Este episódio levou a FIFA a implementar o sistema de cartões (amarelos e vermelhos) no Mundial seguinte.

Depois, numa partida em que os uruguaios acabaram reduzidos a nove aos onze minutos, a Alemanha Ocidental goleou o Uruguai por quatro a zero e seguiu, tranquilamente, para as meias-finais.

Por outro lado, o Portugal-Coreia do Norte foi um jogo muito mais equilibrado e emocionante. Aos 25 minutos, o Mundo abria a boca de espanto com a vantagem asiática de três bolas a zero, no entanto, não contaram com a resposta de Portugal e, acima de tudo, de Eusébio, que, até ao intervalo, fez dois tentos e reduziu a desvantagem para apenas um golo (2-3). Depois do descanso, o Pantera Negra fez mais dois tentos e assegurou a reviravolta total no resultado. Até ao apito final, José Augusto ainda fez outro golo e colocou o resultado final em 5-3 para Portugal, numa das cambalhotas mais históricas em campeonatos do mundo.

Por fim, os quartos de final encerraram com um duelo equilibrado entre URSS e Hungria, que os soviéticos venceram por 2-1.

Meias-Finais

A primeira semi-final foi vencida pela Alemanha Ocidental que se superiorizou à URSS (2-1) num jogo bastante intenso e que contou com a expulsão do soviético Cislenko (44′).

Na segunda meia-final, Portugal e Inglaterra defrontaram-se em Wembley para o acesso à final. O jogo era para ser disputado em Liverpool, onde os portugueses haviam defrontado os norte-coreanos, mas a pressão inglesa para que o encontro passasse para Londres foi muito forte e a FIFA acabou por aceder ao pedido. Nessa partida, o cansaço da selecção nacional devido à inesperada viagem, aliado a uma marcação implacável de Stiles a Eusébio diminuiu, em muito, as possibilidades lusitanas. Assim sendo, Portugal acabou por perder com a Inglaterra (1-2) e o Pantera Negra terminou o desafio em lágrimas sentindo que, afinal, tinha estado a um passo de uma final de um campeonato do mundo.

Terceiro e Quarto Lugar

Não era o jogo que Portugal e URSS quereriam disputar, todavia, ambos queriam, ao menos, chegar ao pódio do Mundial 66. Num jogo intenso, a selecção das quinas adiantou-se aos 13 minutos, graças a um penalti de Eusébio, mas Malafeev igualou a partida a dois minutos do intervalo. A partir daqui, o jogo foi muito equilibrado e a vitória podia ter caído para qualquer lado, todavia, a dois minutos do fim, Torres bateu Yashin e garantiu a melhor classificação de Portugal num Mundial de futebol.

Final* Inglaterra 4-2 RFA

Ingleses e alemães defrontavam-se numa final inédita na tentativa de conquistarem uma Taça que já havia conhecido uma história bem atribulada.

Exposta em Londres durante dois meses e meio e guardada por seis guardas, a Taça Jules Rimet foi roubada a 20 de Março de 1966 para espanto do Mundo. Ainda assim, uma semana depois, o objecto foi encontrado por um cão chamado Pickles num jardim de Londres e embrulhada em papel de jornal. Com a Taça Jules Rimet recuperada, o jogo pode iniciar-se com a certeza de que o vencedor iria ter algo de muito especial para levantar no momento do triunfo.

Tratou-se de uma final intensa e com várias variações no marcador. Os alemães marcaram primeiro, aos 12 minutos, por Haller, mas os ingleses conseguiram dar a cambalhota no marcador com golos de Hurst (18′) e Peters (78′).

Já se fazia a festa em Wembley, mas aos 90 minutos, na sequência de uma falta inexistente, Weber empatou a partida e levou o jogo a prolongamento.

Após terem sido obrigados a disputar o prolongamento na sequência de uma falta que não existiu, os ingleses chegariam à vantagem, aos 101 minutos, graças a uma bola que não transpôs totalmente a linha de baliza. O autor do golo que não o devia ser, foi Hurst, que, em cima do final do prolongamento, completou o hat-trick e fez o 4-2 final.

Foi a primeira e, até hoje, única vitória da selecção da rosa num campeonato do mundo, mas, na verdade, quem mais brilhou no Mundial 66 foi um atacante moçambicano de seu nome: Eusébio da Silva Ferreira.

Números do Mundial 1966

Campeão: Inglaterra

Vice-Campeão: RFA

Terceiro Classificado: Portugal

Quarto Classificado: URSS

Eliminados nos Quartos de Final: Argentina, Uruguai, Coreia do Norte e Hungria

Eliminados na Fase de Grupos: México, França, Espanha, Suíça, Chile, Itália, Brasil e Bulgária

Melhor Marcador: Eusébio (Portugal) – 9 golos

Equipa do Mundial 1966: Banks (Inglaterra); Cohen (Inglaterra), Moore (Inglaterra), Beckenbauer (RFA) e Schnellinger (RFA); Voronin (URSS) e Coluna (Portugal); Simões (Portugal), Haller (RFA), Bobby Charlton (Inglaterra) e Eusébio (Portugal).

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Em pleno Mundial do Chile, após Pelé se ter lesionado no segundo jogo da fase de grupos, diante da Checoslováquia, os brasileiros pensaram que haviam perdido as hipóteses de se sagrarem bicampeões do mundo. Contudo, um jogador para o qual todos os adversários tinham o mesmo nome e todos os jogos a mesma importância resolveu fazer de Pelé, iniciando uma sequência de jogos fenomenais que empurraram o Brasil para a conquista do título mundial. Assim sendo, o sétimo campeonato do mundo foi conquistado pela selecção canarinha, graças a um atleta de pernas tortas, que fazia sempre a mesma finta, mas sempre com sucesso: Mané Garrincha.

Primeira Fase

Este campeonato do mundo, realizado no Chile, teve um sistema em tudo semelhante ao que veremos no Mundial da África do Sul, sendo que a única diferença foi a presença de 16 selecções em vez das actuais 32.

No Grupo A, a URSS qualificou-se como primeira classificada após vencer  a Jugoslávia (3-1) e o Uruguai (2-1) e empatar com a Colômbia (4-4). No jogo com os colombianos, Yashin foi criticado por, depois dos soviéticos estarem a ganhar 4-1, ter facilitado e sofrido alguns golos questionáveis. A pressão foi muito grande mas o “Aranha Negra” acabou por manter a titularidade e, em 1963, acabou por ganhar a Bola de Ouro. Até hoje, foi o único guarda-redes a consegui-lo. Também neste grupo, os jugoslavos, apesar da derrota com os soviéticos, apuraram-se como segundos classificados, graças às vitórias sobre a Colômbia (5-0) e Uruguai (3-1).

Por outro lado, no Grupo B, a Alemanha Ocidental foi a selecção mais forte, vencendo a Suíça (2-1) e o Chile (2-0) e empatando, a zero, com a Itália. Logo abaixo dos germânicos, ficou a selecção anfitriã que, apesar de ter perdido com a RFA, venceu helvéticos (3-1) e italianos (2-0), apurando-se também para os quartos de final. O jogo entre Chile e Itália foi muito intenso e ficou conhecido como a batalha de Santiago. No meio de várias expulsões, curiosa foi a primeira, a do italiano Ferrini, pois este recusou-se a sair de campo e só a polícia conseguiu tirá-lo de lá.

Depois, no Grupo C, o Brasil ficou em primeiro lugar, após vitórias diante da Espanha (2-1) e México (2-0) e um empate diante da Checoslováquia (0-0). Neste grupo, também se apuraram os checoslovacos que, além do empate com o Brasil, venceram a Espanha (1-0) e perderam com o México (1-3). A grande desilusão do agrupamento foram os “nuestros hermanos” que chegaram a este mundial como a selecção da ONU por terem várias estrelas internacionais (Puskas e Di Stéfano eram exemplos), mas acabaram por cair logo na primeira fase.

Por fim, o Grupo D foi vencido pela Hungria, que venceu a Inglaterra (2-1) e Bulgária (6-1), empatando, depois, com a Argentina (0-0). Quem acompanhou os húngaros no apuramento para a segunda fase foi a equipa dos três leões, pois apesar da derrota com os magiares e do empate a zero com os búlgaros, venceu os argentinos (3-1). Um triunfo que se revelou decisivo na passagem aos quartos de final.

Quartos de Final

No primeiro desafio dos quartos de final, a União Soviética foi surpreendida pelo Chile, que venceu por duas bolas a uma. Após a primeira fase, poucos acreditariam no desaire soviético, mas a equipa anfitriã, muito matreira, acabou por conseguir o passaporte para as meias finais.

Ainda assim, as surpresas não ficaram por aqui, pois a Hungria (perdeu 1-0 com a Checoslováquia) e a Alemanha Ocidental (perdeu 1-0 com a Jugoslávia) que também  haviam vencido os seus grupos caíam, assim, diante de selecções teoricamente mais fracas.

Assim sendo, a única equipa que confirmou o favoritismo nos quartos de final foi o Brasil. A equipa canarinha venceu a Inglaterra por 3-1, num jogo em que Garrincha bisou e ainda se deu ao luxo de falhar um penalti.

Meias-Finais

O jogo mais emocionante das semiMas-finais foi, claramente o Brasil-Chile. O campeão do mundo defrontou a equipa anfitriã e venceu a partida com relativa facilidade por 4-2. No entanto, Garrincha, que voltou a bisar, acabou expulso devido a uma picardia com o chileno Sánchez. Essa expulsão assustou os brasileiros que não o queriam fora da final e, assim, iniciou-se uma enorme pressão ao árbitro e ao assistente uruguaio: Esteban Marino. A pressão foi tal, que o árbitro escreveu no relatório que não viu a infração de Garrincha e, como tal, a FIFA despenalizou o anjo das pernas tortas.

Por outro lado, a outra partida saldou-se numa vitória da Checoslováquia diante da Jugoslávia por três bolas a uma. Isto significava que teríamos um Brasil-Checoslováquia na final do campeonato do mundo.

Terceiro e Quarto Lugar

O duelo para atribuição do terceiro e quarto lugar apenas foi decidido em cima do apito final. Nesse momento, Rojas não perdoou e garantiu o terceiro lugar ao Chile. Assim sendo, a Jugoslávia teve de se contentar com o quarto lugar.

Final* Brasil 3-1 Checoslováquia

Esta final tinha à partida um vencedor anunciado. O Brasil podia não ter Pelé, mas tinha o melhor Garrincha de sempre e isso, durante o Mundial, bastou.

Apesar de ter começado a partida a perder, graças a um golo de Masopust (15′), os brasileiros nunca perderam a calma e, dois minutos depois, Amarildo empatou a partida.

A equipa checoslovaca era compacta e defendia muito bem. Assim sendo, foi conseguindo adiar o segundo golo canarinho por diversas vezes. Ainda assim, aos 69 minutos, Zito quebrou finalmente a cortina checoslovaca e fez o 2-1 para os brasileiros.

Esse golo decidiu o jogo, pois os europeus foram incapazes de reagir, sofrendo ainda um terceiro golo, apontado por Vává (78′).

Pouco depois terminava o desafio e o campeonato do mundo. O Brasil era bicampeão muito graças à magia de um grande senhor do futebol: Mané Garrincha.

Números do Mundial 1962

Campeão: Brasil

Vice-Campeão: Checoslováquia

Terceiro Classificado: Chile

Quarto Classificado: Jugoslávia

Eliminados nos Quartos de Final: Alemanha Ocidental, União Soviética, Hungria e Inglaterra

Eliminados na Fase de Grupos: Uruguai, Colômbia, Itália, Suíça, México, Espanha, Argentina e Bulgária

Melhor Marcador: Jerkovic (Jugoslávia) – 5 golos

Equipa do Mundial 1962: Schrojf (Checoslováquia); Djalma Santos (Brasil), Mauro (Brasil), Sánchez (Chile) e Schnellinger (RFA); Voronin (URSS) e Masopust (Checoslováquia); Garrincha (Brasil), Bobby Charlton (Inglaterra), Albert (Hungria) e Vává (Brasil).

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