
Jesualdo é essencial para o momento actual do Sporting
Devo começar por dizer que não acho Jesualdo Ferreira um treinador fora de série. Não é. Trata-se de um treinador demasiado académico, ou seja, daqueles técnicos que dominam quase na perfeição os aspectos teóricos, mas que, depois, têm algum défice na leitura mais instintiva do jogo, acabando por ser demasiado reféns de dogmas.
Para além disso, o “Professor” (a alcunha que lhe é dada encaixa na perfeição pela razão supra-citada…) tem uma concepção de jogo algo conservadora, ou seja, terá sempre dificuldade para ser bem visto por adeptos que anseiam por futebol de ataque e constantes exibições convincentes.
Ora, um Sporting normal (já nem digo um Sporting forte…) sempre teve na sua génese uma certa necessidade de procurar um futebol bonito e atractivo e isso, muitas vezes, faz com que os adeptos deturpem os próprios números na sua mente e se lembrem, simplesmente, daquelas exibições mais míticas.
Querem exemplos? Nunca ouvi nenhum adepto suspirar por Fernando Santos, mas o actual seleccionador grego terminou a época de 2003/04 com 73 pontos e apenas a nove do super-FC Porto campeão europeu de José Mourinho. Nessa época e apesar de terminado a um ponto do Benfica, depois de uma fraca recta final temporada, foi a única equipa que ainda beliscou a superioridade azul-e-branca. Ainda assim, todos o esquecem. Porquê? Porque o futebol não era super-ofensivo, não era esmagador, não era “à Sporting”.
Um ano depois chegou José Peseiro. Tinha uma das melhores equipas do Sporting dos últimos tempos e duas vantagens sobre Fernando Santos: José Mourinho havia saído e o Benfica estava mais fraco que na temporada anterior. Dessa época muitos falam de um Sporting que teve o azar de perder tudo numa semana, que dava goleadas e exibições magistrais. Pois é, mas também se esquecem de muita coisa.
Peseiro não perdeu esse campeonato no Estádio da Luz e com o golo de Luisão. Perdeu por ser derrotado em casa com equipas como o Marítimo, Penafiel ou Nacional e empatar com o Sp. Braga (não confundir com o actual), V. Setúbal, União de Leiria e Académica. Fez uma grande carreira europeia? Fez. Mas sejamos sinceros, que equipas de top eliminou? O Newcastle United (14º da Premier League)? o Middlesbrough (7º)? o AZ (3º da Eredivisie a 23 pontos do PSV)? o Feyenoord (4º)? Já nem vou falar que perdeu a final, em casa, diante do CSKA Moscovo. Avancemos…
Esta atracção leonina por treinadores de futebol vistoso, mesmo que de fim inconsequente, parece tornar Jesualdo Ferreira desajustado ao Sporting actual, contudo, este Sporting não é um Sporting normal.
Esta equipa com 107 anos de história está a passar a maior crise de que há memória e, para o ano, ninguém pode esperar um futebol vistoso e ganhador. A próxima temporada é um ano zero, um ano de reestruturação desportiva e que vai implicar uma novo paradigma. Um paradigma a que, infelizmente, os adeptos verde-e-brancos vão ter de se habituar nas próximas épocas e que passa por o Sporting se consciencializar que não pode competir com o Benfica ou FC Porto. Custa? Claro que sim, mas há que encarar a realidade dura e como ela é.
Neste momento, o Sporting tem de passar por uma “braguização”, que não deve ser entendida por uma colocação ao nível do Sporting de Braga, pois as histórias e potencialidades de ambos os clubes nem se comparam, mas, ao invés, uma aposta mais forte nas estruturas e quando digo estruturas digo internas e externas.
Na minha opinião, o Sporting tem de se fortalecer por dentro e, para isso, tem de afastar todos os elementos supérfluos que por lá habitam e condicionam o crescimento do clube. Bruno de Carvalho parece estar a fazer essa “limpeza” e, aí, estou a cem por cento com o presidente do Sporting.
Depois, há que recuperar os poderes nas altas esferas do futebol português. Foi esse trabalho de base que Luís Filipe Vieira soube fazer, calmamente, ao longo dos anos e com os resultados que se vêem. Lembram-se onde estava o Benfica há doze anos? São coisas que levam tempo, mas têm de ser feitas, pois, caso contrário, o Sporting será sempre um “calimero” das arbitragens, não retirando quaisquer benefícios palpáveis desse constante “choro”.
É neste estado de coisas que entendo que Jesualdo Ferreira é o treinador ideal para o momento actual do leão. Na próxima temporada, o mais importante para o Sporting é diminuir o fosso para os dois actuais gigantes do futebol português e discutir o terceiro lugar com o Sp. Braga. (esqueçam o Paços de Ferreira, que esta época não se repete…)
Para isso, é preciso potenciar uma série de jovens talentosos (as gerações de 93 e 94 são das mais fortes da história do Sporting) e começar a construir uma equipa de futuro. Formar e evoluir têm de ser conceitos fundamentais.
Ora, isso são as principais qualidades de Jesualdo. Já repararam no que tem evoluído Ilori ou Bruma com o “Professor”? E mesmo Rinaudo e Viola? Existe muito trabalho de base e muita paciência do actual treinador do Sporting e, neste momento, é o que o leão precisa.
Por outro lado, perante o plantel ainda mais jovem que o Sporting terá em 2013/14 será necessária outra das grandes qualidades de Jesualdo Ferreira: a gestão psicológica. Será preciso gerir as euforias e as depressões de uma época que, garantidamente, terá das duas coisas e, nisso, o actual treinador verde-e-branco é especialista. De facto, basta verificar a forma como ele pegou esta temporada numa equipa completamente destruída e com riscos sérios de cair à Liga de Honra e conseguiu fazê-la renascer das cinzas.
Para além disso, é preciso realismo. É preciso perceber que, muitas vezes, há que reconhecer a superioridade do adversário e ser-se mais pragmático e matreiro. Lembram-se do Sporting-FC Porto, que muitos dizem que foi o momento em que o Sporting quebrou finalmente com a época desastrosa? Nesse jogo, Jesualdo Ferreira aceitou a superioridade azul-e-branca e jogou retraído e organizado, arrancando um ponto (podia ter ganho com um van Wolfswinkel mais acertado) e um grande “boost” psicológico para a equipa.
Daqui a dois ou três anos, se tudo correr bem, o Sporting vai precisar de um treinador diferente de Jesualdo Ferreira. Contudo, neste momento, o Sporting precisa mais de um gestor e de um formador que de um treinador de top e, como tal, o meu voto vai para o “Professor”. Que continue o seu excelente trabalho nos leões.